O olhar viciado impossibilita lidar com diferenças e julga

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Foto de Júlia Bolsanelo

Renata Junger Delogo Gonçalves

Mestre em Psicologia Institucional (PPGPSI/UFES). Pós-graduanda em psicoterapia corporal para crianças e adolescentes

Na definição do dicionário, diferença é: 1. qualidade do que é diferente; o que distingue uma coisa de outra; 2. falta de igualdade ou de semelhança. O discurso da falta tem imperado sobre a diferença. Eu prefiro outro caminho, o da potência, do excesso. Mas, ainda naquela perspectiva, aonde a diferença reside? Talvez no olhar do outro que, treinado a ver sempre mais do mesmo, estranha o novo reduzindo-o àquilo que se quer distância. Exercício de afirmação que parece confortar quem faz.

Estamos diante de um olhar viciado que ao impossibilitar-se de lidar com a diferença julga, fere e machuca. Se deparar com as “diferenças” do outro é necessariamente enxergar as nossas e, dessa forma, nos confrontar com elas. Sei que esse não é um processo fácil, mas isso não nos autoriza a tutelar a vida do outro. Diferente disso, vou contar uma história que expressa o sentido mais potente da “diferença”.

Sou professora de dança de um grupo de pessoas com Síndrome de Down e estamos trabalhando nesse bimestre os ritmos do carnaval, primeiro passeio que faremos sobre os ritmos brasileiros. Sugeri leva-los a um show, bloco do Silva, para então experimentarmos essa atmosfera. Esse objetivo explodiu em outros sentidos e é disso que vamos conversar.

Sob a desconfiança de alguns e o estranhamento de muitos, fomos eu e duas pessoas “levar” sete jovens para essa “aventura”. A chuva do início já anunciava quantos corações nós lavaríamos naquela noite. Passando por uma multidão de olhares, ainda curiosos, me veio um encantamento: um rapaz me mostrou uma foto de uma pessoa com Síndrome de Down e disse: Nossa! Nunca pensei em trazer ela para um show! Vou fazer isso”. O primeiro contágio de muitos que aconteceram ali.

As cortinas da invisibilidade e do estranhamento foram arrancadas por uma energia de empatia e amor traduzida por olhares acompanhados de sorrisos largos: me lembro de um que nos surpreendeu, pedindo para ficar perto da gente. A então “diferença”, sumiu. Eram pessoas compartilhando uma alegria potente e excessiva! Vê-las dançando, transitando pelos lugares sem tutela e com respeito foi emocionante.

Celebramos a diversidade! A coexistência de formas, movimentos e fluxos! Em um determinado momento do show, o grupo se deparou com dois rapazes se beijando. A primeira reação foi de espanto, era uma cena inédita pra muitos. Alguns riram, outros se afastaram e outra me fez de escudo para não ver o “diferente”. Até que ouço de um deles: Isso não pode! Prontamente respondi: Pode sim! Olha como eles estão felizes, assim como nós!

Com o tempo o estranhamento foi passando e os rapazes se misturaram na multidão, sumindo do “holofote da diferença”. No encontro entre “diferença” e a diversidade, o que imperou para além do estranhamento inicial foi o respeito e a alegria que nos uniam excessivamente.

Longe de idealizar os desafios que se impõem na vida de quem é “diferente”, quero manifestar minha profunda gratidão: ao público “diferente” do Silva por acolher meus alunos com generosidade e amor, à presidente da Vitória Down que é “diferente” e incentiva a autonomia dos jovens, ao universo por que me fez sensível à “diferença”. Diante de tantas notícias tristes que nos esvaziam e nos deixam sem ar, essa história é alimento e fôlego para nossas lutas. Sem mais, te convido a pensar que o te faz “diferente” pode ser sua maior potência ou seu maior peso, a escolha é sua.



Editora da revista Viver!, uma das mais importantes revistas de saúde do país. A publicação Sul capixaba circula mensalmente há mais de 17 anos.


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